Tomar Partido Pelo Partido

 

 

As tentativas de destruição do PCP ou a sua transformação num partido social-democrata por dentro, são históricas e constantes.

 

Entre 1956-1959, vigorou como linha do Partido um desvio de direita, reconhecido pelo PCP na reunião do Comité Central de março de 1961 (http://www.ges.pcp.pt/bibliopac/imgs/mil03110.pdf), que aprovou o relatório do Secretariado «Ensinamentos de uma série de traições» publicado no Militante de maio do mesmo ano.

 

De então para cá mudaram-se táticas mas  o objetivo final é sempre o mesmo: pôr em causa a via revolucionária para o socialismo e a inerente política de alianças, com a destruição ou a deformação da base teórica do marxismo-leninismo. Uns, poucos, fazem-no diretamente; outros, a maior parte, afirmam frequentemente a defesa do socialismo, teorizando sobre mais democracia e novos caminhos para lá chegar, num etc. de vários socialismos. Também utilizam a crítica (por vezes justa) a métodos de organização e funcionamento, não para os corrigir, mas para fundamentarem o ataque à via revolucionária. Assim foi com o "Grupo dos Seis" e a "Terceira Via". Nos dois grupos houve um elemento comum, que foi o facto de terem sido protagonizados por gente que exercia cargos de direção ou representação política ao mais alto nível. Já Lenine tinha escrito que a traição, num partido comunista, vem sempre da direção.

 

Com o disparo sempre dirigido no mesmo alvo social-democratizante,  em 15 de Fevereiro de 1998, pela primeira vez Álvaro Cunhal é derrotado numa reunião do Comité Central, que aprova, por maioria, uma Resolução designada «Por um novo impulso na organização, intervenção e afirmação política»  (http://www.pcp.pt/publica/militant/233/p60.html). Nesta resolução do CC, as velhas teses reformistas foram retomadas e, a partir dos organismos executivos, avançou-se com medidas de descaracterização de um partido revolucionário, para o adaptar à mera institucionalidade da luta. Perante este capitulacionismo, muitos foram os dirigentes e militantes de base que tomaram partido pelo Partido não capitulando, fazendo o que era preciso fazer, mesmo que isso significasse serem acusados de práticas fracionistas pelos que queriam destruir o Partido.

 

De 1998 a 2002, data da Conferência Nacional do PCP (passando pelo XVI Congresso, em 2000), muitos dos então militantes tomariam, pela primeira vez, contacto com a luta de classes – não fora, mas dentro da nossa casa.

 

Para melhor se compreender esses anos de confronto dentro do partido, vale a pena transcrever algumas frases do que então foi dito, até porque andam por aí muitas almas gémeas que borregaram, a saltar o muro para defenderem, hoje, o que então combateram. Talvez as almas gémeas,  à boa maneira burguesa, apenas quisessem o poder.

Ora, assim falavam os defensores do Novo Impulso:

 

 

1) JOÃO AMARAL E EDGAR CORREIA:

 In “Semanário Expresso” 19-01-2002

 

«Os AUTORES representam-se a si mesmos. Somos comunistas, militantes do PCP. Trazemos a público uma reflexão, da qual somos exclusivos responsáveis.

(…) Os que atuam como se fosse preferível ser a direita a governar, com a ideia de que quanto pior melhor para disputar a influência ao PS, cometem um profundo erro de cálculo e serão responsabilizados por muitos portugueses, a começar pelos trabalhadores, caso isso venha a acontecer.

Importa que o PCP não seja muleta do PS. Mas também importa que não seja muleta do PSD.

(…) O regresso da direita ao poder constitui um perigo que não pode ser escamoteado. Se se deixar desenvolver a ideia de que só o PS é alternativa eleitoral ao PSD a derrota da direita será mais difícil, a bipolarização tornar-se-á imparável e o PCP corre o risco de se reduzir em representação e influência.

Sustenta-se por isso que o PCP, além de defesa das suas propostas, apresente ao PS e ao BE uma proposta de plataforma política para uma convergência pós-eleitoral, suscetível de viabilizar uma reorientação de política no sentido da esquerda, que conte com a participação ou simplesmente com o apoio parlamentar dos comunistas e seja mobilizadora de um largo apoio social.

Assim, o PCP retomaria a iniciativa estratégica. Asseguraria que os seus votos serviriam para dar força às propostas e para configurar como possível um entendimento à esquerda. E colocaria os outros partidos perante a necessidade de clarificarem a sua posição política.

Há os que na direcção do PCP respondem mais uma vez com o expediente do «agora não». Mas, com a orientação que têm levado à prática, em vez do reforço do Partido têm-no de facto conduzido a um enfraquecimento cada vez maior e contribuído objetivamente para o crescimento do PS.

(…) no documento dirigido ao Comité Central, a defender a convocação de um Congresso Extraordinário, 700 militantes subscreveram a necessidade de «discutir e aprovar uma estratégia política para as eleições legislativas, incluindo a possibilidade da apresentação às restantes forças de esquerda de uma plataforma com as condições básicas para uma convergência política de esquerda»

(…) Por isso, acusar os subscritores do abaixo-assinado de pretenderem «branquear» ou defenderem um acordo «subserviente» com o PS é uma afirmação caricata e que carece de seriedade política.

(…) Que fique claro: o PCP deve assumir o objetivo do seu próprio reforço, mas a concretização desse objetivo é inseparável da contribuição dos comunistas para manterem a direita em minoria na AR e para se atingir um entendimento à esquerda.

Esse entendimento terá o seu centro de gravidade tanto mais à esquerda quanto mais reforçadas forem as posições dos partidos que se situam à esquerda do PS. O que é diferente de se fazer depender qualquer entendimento à esquerda de um prévio e expressivo crescimento eleitoral do PCP e de uma simultânea quebra do PS – o que realisticamente não se configura para daqui a dois meses  -, pois isso significaria na prática negar a possibilidade de qualquer convergência à esquerda e ficar passivo perante a possibilidade de a direita conquistar o poder.

 

 

2)  CARLOS BRITO:

In A Capital 8/11/2000 - entrevista sobre o livro “ A páginas tantas”

 

(…) São pessoas de esquerda, de várias tendências, predominantemente comunistas. A não ser os que mudam de campo, os outros são resistentes, são combatentes, têm dúvidas, interrogam-se, mas também uma grande compreensão sobre a necessidade de intervir, sobre a cidadania ativa e têm esperança sob a forma de transformar o mundo, (…) desta compreensão das realidades também ressalta com muita força uma outra ideia: as esquerdas têm de se entender. A direita avança, com esta subordinação cada vez maior do poder político ao poder económico vai-se acentuando para fazer frente a isto de uma forma consistente e forte, é necessário que a esquerda se entenda das maneiras mais variadas.

 

 

3) EDGAR CORREIA:

In Público 26/12/2001, “Os trabalhos da esquerda”

 

(…) Por mais insuficiente e limitada que seja a realização, nas presentes condições pré-eleitorais, de uma reflexão de fundo que tenha em conta as profundas alterações societais e comunicacionais, nacionais e globais, que se projetam na vida política portuguesa, seria no mínimo importante que cada força política de esquerda assumisse, para além das suas análises e propostas próprias, a afirmação da base ou plataforma política em que se dispõe a contribuir, seja a nível parlamentar, seja também a nível governamental, para a formação de uma maioria de esquerda na próxima legislatura. Não é evidente que disso depende, em alto grau, a capacidade de derrotar a presente ofensiva da direita?»

 

 

4) O  MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO COMUNISTA:

Texto base para o Fórum da Renovação Comunista de 23 de Novembro de 2002

 

 «(…) Os comunistas orgulham-se de serem portadores de um projeto de transformação com avançados objetivos humanistas e de progresso social. Mas, a derrota histórica que os acontecimentos nos países do “socialismo real” representaram, pela sua extensão e significado, bem como a continuada perda de influência dos partidos comunistas na generalidade dos países capitalistas, exigiriam uma persistente e aprofundada reflexão que examinasse criticamente as suas causas. E o empreendimento, em condições profundamente mudadas, de uma corajosa renovação do pensamento e da ação comunistas.

 (…) Um processo bloqueado. Durante vários anos, no debate que apesar de tudo foi possível travar no seio da direção do PCP, vários dirigentes defenderam a necessidade de concretização de uma evolução política, ideológica e organizacional, sem roturas. É certo que, com esta opção, o peso de preconceitos e ideias feitas conduziu a um processo pouco audacioso, lento e passando muitas vezes ao lado de questões essenciais. Mas mesmo assim, em Fevereiro de 1998, na sequência de um grave revés partidário registado nas eleições autárquicas do ano anterior, acabaram por ser aprovadas pelo Comité Central importantes alterações constantes do Documento conhecido como o “Novo Impulso”.

 (…) O que se passou depois dessa reunião do Comité Central, e que é do conhecimento de cada vez mais comunistas, foi a constituição de uma organização fracionária no seio da direcão (envolvendo dirigentes que tinham ficado em minoria na reunião do CC e que controlavam alguns sectores-chave), ramificada pelo conjunto do aparelho partidário e o lançamento de uma campanha conspirativa contra a orientação maioritária aprovada. Constituindo um autêntico partido dentro do Partido, usando todos os meios ao seu alcance, recorrendo a vergonhosas campanhas de mistificação,  mentira e calúnia, contra outros dirigentes do Partido, beneficiando da passividade cúmplice do Secretário Geral, esse grupo fracionário não só boicotou onde pôde as decisões em que tinha sido vencido, como organizou um verdadeiro cerco aos órgãos legítimos de Direção que tinham tomado essas decisões, visando alterar a sua composição, por forma a instalar uma maioria que lhe fosse favorável.

Sectarização e regressão. O XVI Congresso, cuja preparação decorreu sob o signo de condicionamentos antidemocráticos e de comportamentos persecutórios, acabou por traduzir-se no controlo da Direção por parte desse grupo fracionário e na consagração de uma deriva conservadora, sectária e pseudo-obreirista.

Muito ainda se poderia transcrever sobre este período (ficará para outra altura) até porque este velho impulso foi retomado em muitos dos seus desígnios, agora no discurso não se põe em causa métodos de organização nem o centralismo democrático, mas a verdade é que a subversão está a acontecer: o centralismo democrático foi transformado em centrismo, a discussão da base ao topo é pura miragem. Muitas decisões são anunciadas na comunicação social e os militantes segundo os critérios “do está decido é para cumprir” não têm margem para opinião. Quem resiste é acusado de agir como se estivesse fora do partido e aliado do anticomunismo.

Enfim outros do tal impulso só lhes chamaram fracionista.   Sim, porque alguns dos que agora assim se dirigem a quem deles diverge  eram os tais fracionistas.»

 

Por último, vale a pena transcrever o agradecimento dos designados Renovadores comunistas à também designada “nova fase da vida política”:

 

5) O  PRESIDENTE DA RENOVAÇÃO COMUNISTA

 Por:  Lusa 09 Nov, 2015, 11:47:

 

«Renovação Comunista assinala "enorme viragem" após 15 anos a reclamar convergência»

«Paulo Fidalgo, congratulou-se hoje com a "enorme viragem" que representa o acordo entre PS, PCP, BE e PEV, considerando que "todos modificaram o seu posicionamento" para "romper um bloqueio político" de 40 anos.

"Abre-se um novo ciclo político. Sabemos que o processo de negociação foi uma enorme viragem na situação portuguesa e percebemos que o acordo foi prudentemente baseado em pequenos passos o que é natural para 40 anos em que estivemos em bloqueio político de diálogo entre o centro esquerda e a esquerda", afirmou, em declarações à agência Lusa.

Paulo Fidalgo lembrou o papel dos fundadores da associação Renovação Comunista João Amaral, Edgar Correia, já falecidos, e os históricos comunistas Carlos Brito e Carlos Luís Figueira na reclamação "muitas vezes solitária e incompreendida" de uma convergência entre os partidos da esquerda.

"Sem eles, sem a sua persistência, num trabalho quase isolado, muito incompreendido pelas forças oficiais do movimento comunista e do próprio Bloco de Esquerda que sempre tiveram leituras opostas a esta, mas que felizmente a história e a força popular vieram agora proporcionar uma evolução que a todos contenta e a partir de agora somos todos vencedores", disse.

Questionado se considera que o PCP e o BE deviam estar representados no governo liderado pelo PS, Paulo Fidalgo sustentou que "seria preferível que estivessem representados" mas isso "não é um elemento decisivo".

"Era preferível que estivessem representados, mas também depois da grande viragem política posso perceber que não é prudente dar esse passo já. O compromisso com a governação seria mais claro. O governo contaria com mais apoio mas não é um elemento decisivo", disse.

O presidente da Renovação Comunista advertiu que o acordo entre o PS e o BE, PCP e PEV "precisa de mais aprofundamento" para a construção de "uma alternativa de futuro" para além da resposta a "necessidades imediatas sociais e económicas" do país.»

 

 

Mais palavras para quê? Que cada comunista tire as suas conclusões

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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