Sobre Os Resultados Eleitorais Alcançados Pelo PCP Nas Eleições Para O Parlamento Europeu

 

Esperando ainda que a discussão no Partido tivesse tido um outro rumo, escrevemos só agora a presente reflexão na sequência do Comunicado do CC cuja análise às eleições parlamentares consideramos não se ajustar à realidade.  Consideramos, igualmente, que,  nas reuniões do Partido em que estivemos presentes, nunca se fez uma correta avaliação  das causas da nossa derrota eleitoral.  Com efeito, na maioria dos casos, ora se procedeu à simples leitura do comunicado do CC,  ora se abordaram  assuntos que não  tocavam no tema dos resultados eleitorais. Muitos dos militantes aguardam, aliás, a realização de uma reunião plenária sobre esta matéria.

 

Lembramos que já aquando das eleições para a presidência da República,  em que o camarada Edgar Silva apenas alcançou 3,95% dos votos (182 905 votos), vivemos uma situação semelhante.  Nessa altura (Janeiro de 2016), o comunicado do CC dizia que o resultado obtido ficava “aquém do valor que o seu projeto exigia”.  Ora, que ficava aquém, sabemos nós, mas é depois avançada uma razão para tal  resultado: “o panorama mediático desigual e de promoção e favorecimento de outras candidaturas e de apelos a sentimentos populistas e anti-democráticos”. Dizia-se que muitos votaram no candidato Sampaio Nóvoa, numa primeira volta, como forma de derrotar o candidato de  da direita.
 
Mas, afinal, qual era, então, o papel do PCP? Sobre  esta questão o comunicado era mudo, mas o resultado obtido não seria de estranhar: nas vésperas das eleições, um membro do CC apelava ao voto nas “candidaturas da esquerda”.

 

Nas eleições autárquicas (Outubro de 2017), segundo a “análise” do CC, os resultados desastrosos obtidos pela CDU limitaram-se a ser constatados (“regista-se negativamente a perda de 10 presidências de câmaras municipais”). Relembramos que foi sempre nas autárquicas que a CDU obteve a sua maior votação.  Contudo, em 2017, obtiveram-se 519 862 votos (10,05%), o que contrasta com os 552 690 votos obtidos em 2013.  Foi, no entanto, confrangedor,  ouvir as palavras do secretário-geral do PCP, na noite das eleições,  afirmando que as populações se iriam arrepender dos resultados obtidos pela CDU. Segundo o secretário-geral, as populações não  teriam valorizado o trabalho da CDU (“Constatando naturais sentimentos de insatisfação e injustiça, esta é sobretudo uma perda para as populações, da presença do trabalho, honestidade e competência que, embora reconhecida, não foi devidamente valorizada”).   Uma vez mais, no entanto, não é feita nenhuma análise sobre as causas que teriam levado a esta desvalorização da CDU. O comunicado limita-se a constatar o óbvio, ou seja, a descida eleitoral.


À semelhança das eleições para a presidência da  República, também nas eleições autárquicas de 2017  o PCP vem falar de  um “quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses. Uma campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que o seu percurso e programa desautorizam. (...) Uma ostensiva campanha para procurar criar «casos» e, sem fundamento, lançar a suspeita sobre os eleitos da CDU visando atingir a comprovada honestidade e o rigor que estão presentes no exercício dos cargos públicos”.  Acrescenta-se que os eleitores  não tinham tido consciência “da contribuição decisiva do PCP em muito do que foi alcançado na reposição e conquistas de direitos”.  Depois de uma referência ao anterior governo (PSD/CDS),  enumera-se, ainda,  o que o Partido considera um “conjunto de avanços na reposição, defesa e conquista de direitos, alcançados na nova fase da vida política nacional",  mas cujo alcance, na realidade, é extremamente reduzido e não passa de “migalhas”: o abaixamento de alguns impostos diretos que são compensados pelos impostos indiretos; o aumento extraordinário das pensões de reforma que continuam a ser pensões  de miséria;   manuais escolares gratuitos para o 1º ciclo sem se referir o facto de as editoras  terem lançado livros de fichas, de compra  obrigatória, para cada um dos manuais;  o aumento do abono de família que está longe de abranger todos os agregados familiares; as 35 horas de trabalho na Administração Pública que apenas se aplicam a parte dos seus trabalhadores; o alargamento e abaixamento do preço do passe social intermodal pago pelas autarquias e à custa da diminuição da frequência e qualidade dos transportes públicos; a falácia do fim da precariedade  na Administração Pública e a proliferação da precariedade   no setor privado; entre outros.  As populações sentem isto.

 

Nestas eleições para o Parlamento Europeu, a CDU obtém 228 054 votos (6,9%),  tendo elegido 2 eurodeputados. Após a informação de que os resultados obtidos não correspondem ao ambiente de apoio expresso durante a campanha, logo se diz que não se podem comparar os resultados destas europeias com... as anteriores eleições europeias. Então, estas eleições  deveriam ser comparadas com o quê?!  Com as autárquicas, com as legislativas ou com as presidenciais é que não é, seguramente! E se nos dizem que não  podemos comparar os resultados das eleições europeias de 2019 com os resultados das eleições europeias de 2014, por que razão é que, no mesmo comunicado, o CC faz esta mesma comparação no caso do BE, afirmando “O resultado do BE traduzindo um crescimento eleitoral, obtido a partir de um patamar de votação muito baixo registado em 2014, fica ainda aquém da expressão eleitoral e dos três deputados que alcançou em 2009”?


No mesmo comunicado,  realça-se que, em 2014, a CDU, na altura do Pacto de Agressão, obteve os melhores resultados . Ora, se, segundo o PCP, o povo português vive melhor agora, devido às conquistas e aos direitos alcançados com este acordo com o PS,  e o resultado destas eleições europeias esteve aquém do esperado, quer isto dizer que o Pacto de Agressão – acompanhado de roubos de direitos, era eleitoralmente  mais favorável para o PCP,  Porquê? Desta vez aplicava-se o critério do “quanto pior melhor”?

 

A CDU não alcançou o objetivo nem de manter nem de subir a votação.


À semelhança de anteriores comunicados,  surge, então, a atribuição de culpas à comunicação social burguesa: contra a CDU há uma “intensa operação de desvalorização da sua intervenção e do seu trabalho, de animação de preconceitos e de uma meticulosa ação para menorizar a sua campanha e perspetivas eleitorais”


Mas em anteriores eleições não houve, de igual modo, este tipo de campanha anticomunista? Alguma vez deixou o inimigo de classe de usar todos os seus meios para atacar os comunistas?

 

Uma vez mais, o exercício da autocrítica encontra-se totalmente ausente.

 

Este último comunicado tem, contudo, um elemento novo: o CC do PCP considera que o resultado das eleições para o Parlamento Europeu é, também, o resultado de um “aproveitamento nesta campanha de atitudes e intervenção pública de membros do Partido contra o Partido”. A sério? Perdem-se aproximadamente 200 mil votos por causa de supostos membros do Partido ligados ao grande capital? A seriedade dá, desta forma, lugar ao desespero. O que deveria ser uma leitura séria da realidade torna-se, deste modo, numa desesperada acusação sem fundamento, num vã tentativa de buscar culpados para uma hecatombe cuja responsabilidade recai sobre as opções políticas do próprio Partido.

 

Diz, ainda, o comunicado, que o PS beneficiou da intervenção do PCP e do PEV.  Ainda que este argumento fosse aceite, ele não justificaria o facto de o PCP não ter beneficiado desta suposta intervenção positiva. Relembremos que o PCP  votou  favoravelmente  os  Orçamentos de  Estado da presente legislatura, os quais incluem, por exemplo, a entrega de  milhões de euros para o pagamento da dívida que leva à asfixia do  SNS e da Educação e impede a melhoria geral das condições de vida dos trabalhadores.  Claro que perante o facto de os quatro Orçamentos de Estado terem tido o voto favorável do PCP, os trabalhadores não viram motivos para votar nele.


PCP salvou a social-democracia e teve como consequência uma acentuada descida eleitoral, antevendo-se a ameaça de se tornar num partido residual. A votação decresce, inclusivamente, em zonas onde o PCP sempre esteve fortemente implantado.

 

Mas a perda de perspetiva que nasce da constatação de que já não têm um partido com quem se identificam, um partido que é diferente dos outros, que se eleva acima da mera democracia burguesa, tem essa consequência.  

 

Cremos que quanto mais  o Partido se afastar da sua matriz ideológica original, das suas obrigações  como organização de vanguarda dos trabalhadores, quanto mais o Partido se centrar na luta da frente parlamentar, em detrimento da luta de massas,  maiores e continuadas serão as perdas. Quando um Partido Comunista centra o essencial da sua luta nas eleições, fazendo crer que a resolução dos problemas dos trabalhadores se encontra nas instituições nacionais ou supranacionais (AR, PE), abandona-se a perspetiva de transformação da sociedade, abre-se a via à subversão dos valores que nos conduzem à luta pelo fim da exploração do Homem pelo Homem e retrocede-se no processo de consciencialização das massas.


Dizemos que é preciso ouvir os militantes e que basta de autismo e de vitimização.
 

Dizemos que se encontra em curso um processo  de ataque ao percurso e à memória do PCP, um caminho de luta com quase 100 anos cuja destruição se vem acentuando, um caminho de luta que nos pertence, a nós, comunistas, e que nós, comunistas, não podemos permitir que se destrua.
 

 

 

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