O Que Não Foi Dito Nas Comemorações Dos 100 Anos Da Revolução De Outubro (Parte IV)

 

 

Estaline e o “estalinismo” no centro da argumentação

 

A crítica pequeno-burguesa do socialismo é particularmente verrinosa e assenta fundamentalmente na “democracia”, ou na falta dela, no socialismo, como afirmam. Confundem a liberdade no capitalismo com a liberdade socialista e refletem o medo da pequena burguesia pela democracia proletária. Projetam e injetam nas massas os seus próprios preconceitos e erigem a democracia burguesa ao lugar cimeiro de melhor e única forma de governar. Não podem nem querem ver que o sistema representativo burguês está podre e vai continuar a apodrecer, como se vê hoje pelos muitos exemplos da “democracia” do ocidente capitalista.

 

Estaline tem sido o principal visado na propaganda burguesa e pequeno-burguesa ciosa das suas liberdadezinhas, uma vez mais pelo argumento da falta de liberdade e da natureza ditatorial do seu regime. Quem reflete, quem busca a verdade histórica acerca destes tempos históricos do socialismo soviético é acusado de sofrer um “desvio de esquerda”, de apoiar de ditaduras e métodos antidemocráticos, etc., etc. Reconhecemos que coube a Estaline, depois de Lenine, a construção, pedra a pedra, do socialismo, porque foi capaz de levar o socialismo a derrotar o nazismo e vencer a II Guerra Mundial e a reerguer a URSS das cinzas. O ataque a Estaline é o ataque ao coração do socialismo, numa fase decisiva da sua construção e defesa. Estaline e o PCUS estiveram à altura dos feitos heróicos cometidos pelo povo soviético nessa fase de construção socialista.

 

Nascemos e crescemos sob um manto nauseante de mentira acerca de Estaline. As máquinas de guerra ideológica foram postas em movimento após o “relatório secreto” e inventaram crimes, fomes, deportações para a Sibéria, acusando Estaline como o seu perpetrador. Essa “narrativa” sobre Estaline foi cientificamente construída pelo inimigo de classe para diabolizar todo o socialismo. É tempo de mandar para o caixote de lixo da história todas estas calúnias inventadas pelos serviços secretos e tempo de as forças revolucionárias permitirem sem combate propagar estas invenções, seja pela repetição dos argumentos do inimigo, seja pelo silêncio. Mais: o inimigo de classe atribuiu, como características intrínsecas do socialismo, os supostos “crimes” a Estaline, identificando socialismo com “estalinismo”, conceito que, na consciência das massas, adquire uma conotação imediata com atos terríveis e as leva a temer o socialismo.

 

Internacionalmente existe um movimento que começa a aperceber-se da necessidade de penetrar na verdade histórica, apesar de muitos documentos que seriam indispensáveis terem sido destruídos ou mantidos inacessíveis à investigação. Em Portugal existem já trabalhos publicados nesse sentido. A questão de Estaline que aqui se levanta, parecendo despropositada, não o é de todo e prende-se com a questão do “modelo” de socialismo.

 

Por exemplo, o XIII Congresso do PCP afirmava: «[…] pode considerar-se que esses cinco traços negativos generalizados por transposições mecânicas de soluções (copiadas ou impostas) e herdando alguns conceitos e práticas do estalinismo, caracterizavam como que um “modelo [sublinhado nosso] que os acontecimentos mostram não só não assegurar como comprometer e poder conduzir à derrota a construção da sociedade socialista»[1]. Logo, não deviam ser seguidos pelos comunistas portugueses no seu projeto de socialismo para o nosso país.

 

Lenine viveu até 1923, organizou e dirigiu a revolução e a guerra imposta pelo imperialismo e os aliados internos. Sob sua direção, o socialismo passou pela fase de estabilização como regime sob a forma de ditadura do proletariado. Até à morte de Estaline, em 1953, o Partido bolchevique, sob a sua direção, dirigiu o desenvolvimento do socialismo, liquidou como classe as forças capitalistas que subsistiam, constituiu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e o sistema socialista através do apoio à revolução socialista ou popular nos restantes países do leste da Europa, industrializou o país, socializou a pequena produção camponesa cumprindo todos os compromissos da aliança de classes assumida pelos bolcheviques na realização da revolução, venceu a II Guerra Mundial e transformou a URSS na 2ª potência mundial.

 

A vida determinou que fosse na época de Estaline que se verificaram as maiores conquistas do socialismo em todas as frentes. Durante 30 anos o socialismo tomou a sua forma desenvolvida como sistema, apesar de, obviamente, estar distante do comunismo.

 

Teria tudo isto sido possível sob uma ditadura férrea, criminosa, contra todo o povo, como diz o inimigo? Não. Só o povo soviético, consciente das sua tarefas revolucionárias, só a grande democracia proletária, a ditadura do proletariado, o poderia ter feito. É neste período que o socialismo desabrocha e mostra ao mundo, não só as suas potencialidades, mas também o “modelo” de sociedade que os operários, os camponeses pobres e todos os explorados e oprimidos deveriam almejar.

 

É usual afirmar que na época de Estaline o PCUS sofreu uma “deriva (como hoje se diz) de esquerda”. Tal conceção tem servido para estigmatizar como “estalinistas” os que defendem a revolução socialista e a ditadura do proletariado. Daqui se conclui que os não-”estalinistas” não defendem a revolução, o papel dirigente da classe operária e do seu Partido, nem a ditadura do proletariado. Que rejeitam o “modelo” de socialismo que vigorou na URSS durante 30 anos, que escondem o papel do revisionismo na destruição do sistema socialista, que atribuem ao “estalinismo” precisamente os atos, o estilo, os erros e os defeitos que afinal caracterizavam apenas o desvio de direita do socialismo pós-Estaline.

 

O conceito de “modelo” de socialismo no combate ideológico

 

A ambiguidade e a imprecisão com que esta questão é tratada entre nós esconde os desvios do PCUS na direção do socialismo e atribui a todos os períodos da sua construção aquilo que só veio a concretizar-se a partir da segunda metade do século XX. Isto comporta perigos grandes e induz em erro o Partido e as massas, levando a que não consigam distinguir o socialismo científico por que devem lutar, enterrados na massa sufocante das mentiras do capitalismo e da contrarrevolução com que pretendem cegar e amarrar os trabalhadores.

 

A“narrativa”sobre o “estalinismo” provoca um bloqueio na consciência das massas e do Partido sendo apontado como um “modelo” que se rejeita. O problema consiste em criticar-se Estaline na base da mentira que começou a ser propagada pelo inimigo de classe e pelo revisionismo a partir do “Relatório Secreto”, tomando-o por verdadeiro, com isto fazendo coro objetivamente com os ataques ideológicos do capital. Chamar-se a atenção para a importância de Estaline na história do século XX é considerado um “desvio de esquerda” e quem pensa desse modo é “esquerdista”- irresponsável e voluntarista - participante numa corrente de pensamento “estalinista” - antidemocrático e criminoso – e, por consequência, devidamente ostracizado com a respetiva etiqueta. 

 

A associação entre estalinismo e esquerdismo tem que se lhe diga, a começar pela definição do conteúdo dos dois conceitos. A guerra suja ideológica do capital imperialista, com a CIA à cabeça, conseguiu inventar para Estaline a responsabilidade por matanças do seu povo, purgas cruéis no seu partido, fomes apocalíticas, chacinas de militares polacos, gulags para os opositores, deportações para a Sibéria, etc., etc., além de outros pecados “menores” próprios de um ditador sanguinolento. Será isto que apoiam os “defensores” de Estaline e da verdade histórica sobre ele? Não.

 

Está criada, pois, uma ambivalência, para não dizer que se comete um tremendo erro, na utilização da categoria “modelo” que temos vindo a utilizar. Se se procurar a verdade histórica sobre o socialismo na URSS e no mundo e o papel de Estaline nesse período não são aquelas mentiras que vamos encontrar. Já atrás se fez referências aos feitos do povo soviético sob direção de Estaline e sob o socialismo, não vamos repetir.

 

Mas, então, o que defendem os opositores de Estaline que consideram não ser um “modelo” a seguir? Se as calúnias contra Estaline e o socialismo fossem verdadeiras, nenhuma pessoa, pelo menos com algum vestígio da sua condição humana, poderia apoiar. Muito menos os comunistas que não poderiam ficar-se pela posição envergonhada de declarar “não ser um modelo a seguir” e deveriam combater e desmascarar esse sistema desumano.

 

Se as acusações a Estaline fossem rotundamente falsas, pelo menos em nome do internacionalismo proletário, deveria desmascarar-se as falsas acusações que impendem sobre ele. Mas há quem tenha muito medo do que os “outros irão pensar de nós” e, muito filistinamente, olha para o lado. (Este medo já tinha sido objeto de atenção de Lenine que o classificou como pequeno-burguês temente da burguesia)

 

Que rejeitam então nos «conceitos e práticas que o PCUS herdou de Estaline» (seria bom que tivessem herdado as outras coisas de Lenine e de Estaline) que configuram um “modelo” a rejeitar? 

 

Se não tivesse havido um “relatório secreto” e dirigentes soviéticos traidores ao seu povo o que iria o PCUS herdar de Estaline no caminho rasgado por Lenine com a revolução soviética? (Com toda a modéstia afirmamos que não temos capacidade de fazer esta análise de forma sequer aproximada, pelo que só referiremos o pouco que conhecemos). E se tivesse sido outro dirigente a conduzir aquelas décadas da história do socialismo, o que seria rejeitado no “modelo”? A estabilização do sistema socialista, seu desenvolvimento e aplicação prática? A defesa do socialismo contra o inimigo imperialista nas décadas anteriores à II Grande Guerra? O desenvolvimento extraordinário das forças produtivas no campo e na cidade que permitiu eliminar a fome e as principais carências do povo? Os princípios económicos socialistas no plano da produção e da distribuição da riqueza? O desenvolvimento do campo e a sua aproximação à cidade? A cultura, a habitação, a educação e a saúde para todos? Os contributos teóricos, ideológicos, políticos, militares e económicos de Estaline? A sua visão estratégica apontada ao desenvolvimento produtivas no campo da indústria militar que permitiu derrotar o nazismo? A sua maleabilidade tática em ter assinado o tratado Molotov-Ribentropp? A mobilização de todo o povo para todas as tarefas que teria de cumprir para que o socialismo fosse vitorioso no seu país em todas as circunstâncias, na paz e na guerra? O papel dirigente da classe operária e a sua ditadura (no sentido científico)? O papel de vanguarda do PCUS? A fidelidade ao marxismo-leninismo na interpretação das novas realidades e no apontar do caminho? Além da direção firme de Estaline, o heroísmo revolucionário e espírito de sacrifício de todo o povo soviético não fazem parte do acervo da história do socialismo em todo este período? Também não se defende esta parte do socialismo?

 

Será este o “modelo” rejeitado? Então, com muita pena, afirmamos que é o socialismo tal como ele foi construído, até ao início do seu declínio e derrota, que se rejeita. Se se assume que é o socialismo, de Krustchov em diante, o “modelo” que se deve seguir, então iremos parar ao sítio onde o socialismo se desfez.

 

A construção do socialismo até ao XX Congresso teve seguramente falhas e erros, a organização política económica e social seria certamente imperfeita, como é o socialismo por comparação com o comunismo. Mas do que se trata aqui, tomando como linha divisória o XX Congresso do PCUS, é de duas dinâmicas contraditórias: a dinâmica da construção do socialismo rumo ao comunismo e a dinâmica da destruição do socialismo até ao triunfo da contrarrevolução e do capitalismo.

 

Durante muitos anos, o PCUS, embora compondo cada discurso com o credo do marxismo-leninismo, cada vez mais se distanciava dele e do socialismo científico, da conceção do Estado socialista como o poder da classe operária e dava início ao desmantelamento do poder operário, do socialismo.

 

Para atrair as massas para o socialismo é necessário que isto esteja clarificado. Obviamente que no XIII Congresso do PCP nada disto estava claro, tanto mais que a URSS ainda existia e se encaravam com esperança as medidas da perestroika. Passaram vinte e oito anos sobre o terrível acontecimento que se abateu sobre o mundo e nada mudou de substancial na análise do PCP sobre o assunto.

 

A crítica do PCP ao “modelo”, se o PCP luta pela revolução socialista, terá de ser feita numa base mais esclarecida que não permita que o conceito de “modelo” seja entendido no seu sentido vulgar, no sentido que lhe dá a ideologia burguesa e pequeno-burguesa que atinge e condena todo o socialismo.

 

Quando os comunistas portugueses dizem que não se reveem naquele “modelo” de socialismo devem dizer em que socialismo se reveem, porquanto se cai no perigo de rejeitar o socialismo científico, pretender um socialismo diferente “especial” ou um novo socialismo. E aí entram os revisionistas e reformistas a defender o seu “modelo” de socialismo que não passa de reformas do capitalismo e com isso enganam o povo.

 

O desfecho histórico da experiência socialista não era inevitável, o socialismo poderia ter percorrido outros caminhos se não se tivesse cometido erros capitais e se se tivesse combatido a sabotagem do sistema a partir de dentro e resistido à ofensiva externa do inimigo de classe. Hoje, o mundo seria totalmente diferente.

 

 

 

 

 

 

[1] Resolução XIII congresso p. 180-181 

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