O Que Não Foi Dito Nas Comemorações Dos 100 Anos Da Revolução De Outubro (Parte III)

 

 

[1]

Os “modelos” de socialismo - O socialismo ao longo de 70 anos

 

Para alguém minimamente atento, ou para alguém com um mínimo de bom senso, deverá ser claro que o socialismo na Rússia, na URSS e depois nos países socialistas europeus  sofreu adaptações e alterações (algumas muito profundas), na medida em que as circunstâncias históricas se alteravam na Europa, no mundo e no próprio sistema socialista, coisa que, de resto, a Resolução Política do XIV Congresso do PCP regista[2]. (Não cabe aqui proceder-se ao estudo e caracterização aproximada desses períodos).

 

As cinco causas da derrota do sistema socialista apontadas na resolução do XIII do PCP não podem julgar, mas julgam, cometendo um erro, o socialismo como um todo, ao não fazerem referência ao período que estão a caracterizar. Como já afirmámos, só a partir de determinado momento da sua história se começou a poder atribuir a uma fase específica do socialismo aqueles traços apontados pelo XIII Congresso do PCP. Os autores marxistas ou amantes dos seus povos, que têm refletido e escrito sobre o assunto, concluem que a degenerescência do socialismo se iniciou após a morte de Stalin, com o processo da chegada ao poder de N. Khruschov, e as modificações introduzidas no PCUS e na sua linha a partir do XX Congresso em 1956. Essa linha foi prosseguida pelo partido e pelos dirigentes que se lhe seguiram, apesar de Khroustchov ter sido afastado do seu cargo um pouco mais de um ano e meio depois. Tudo aponta para situar o revisionismo na origem da degenerescência do socialismo e da sua falta de forças para o combate ao inimigo interno e externo.

 

Teremos de aceitar como possível e inevitável o surgimento embrionário destes fenómenos em fases mais recuadas do socialismo. Basta avaliar a luta de morte que se estava a travar interna e externamente entre o socialismo e o capitalismo. Porém, o PCUS e os seus dirigentes souberam como derrotar esses inimigos que, contudo, se apresentaram obviamente, muito persistentes.

 

Os XIV[3] e XVIII Congressos do PCP, na linha do XIII, descrevem com justeza os fenómenos económicos, políticos e ideológicos que caracterizavam o socialismo em degenerescência (sublinhamos “degenerescência”, porquanto as falhas e erros atribuídos ao socialismo em geral correspondem a isso mesmo: ao socialismo degenerescente e não ao socialismo). Mas situam-no principalmente na década de 80 e nos meados da década de 80[4], no período próximo da perestroika, sem explicitar, contudo, como se veio a implementar o “modelo” criticado, por quê e por quem. Sem minimizarmos a importância do fator “externo” - não é nessa questão em que queremos focar-nos – queremos interrogar-nos como e através de quem o inimigo “externo” conseguiu penetrar no coração do socialismo.

 

Por volta do XX Congresso do PCUS, que começa a instalar-se um afastamento do poder popular efetivo e da participação das massas no poder, graves limitações da democracia política socialista nas suas diversas manifestações, o centralismo burocrático na vida interna do Partido e na organização soviética do poder político, a dogmatização, por um lado, e o abandono por outro, do marxismo-leninismo pelo PCUS de que resultou a crescente desmoralização dos militantes comunistas e das massas.

 

As tarefas revolucionárias no plano ideológico

 

Quem deseja o socialismo para o seu país tem de intervir também na frente ideológica rejeitando e desmascarando as críticas burguesas e pequeno-burguesas do socialismo que têm desarmado o proletariado, retirando do seu horizonte o futuro socialista da humanidade e a necessidade incontornável de integrar o socialismo na sua luta, ligado no dia-a-dia às reivindicações imediatas, isto é, politizando a luta. Os argumentos da crítica burguesa de hoje (não muito diferentes das de ontem) do socialismo aproveitam bem os desvios do socialismo e os seus erros para atacar o socialismo como sistema.

 

É fundamental “reabilitar “ o socialismo perante as massas, desmontando as críticas do capital ao socialismo mentindo sem pudor (obviamente) aos trabalhadores, para salvaguardar o modo capitalista de produção cuja essência é o mecanismo de exploração do trabalho alheio. Os argumentos são os conhecidos, associando os comunistas e o sistema socialista a crimes, a violações da propriedade pessoal, à ditadura, à falta de liberdade em geral e de expressão em particular, ao dirigismo das atividades criativas, aos “goulags” aos assassinatos em massa e outros tão ridículos que não podem ser aceites por qualquer mente saudável. O imperialismo tem universidades inteiras a inventar todas as falsidades contra os comunistas e o socialismo, além dos meios de comunicação, monopólios cada vez mais concentrados a servir os interesses dos seus cada vez mais restritos proprietários além dos serviços secretos que, sendo bastante pragmáticos, e por isso mesmo, “trabalham” na área da teoria, demonstrando quanto o inimigo valoriza a ideologia e a teoria (não é por acaso que se esforçam por intervir nos meios intelectuais).

 

Temos de demonstrar aos trabalhadores o avanço civilizacional que o socialismo representou para a humanidade. As suas conquistas não se limitaram ao campo socialista, mas refletiram-se também em grandes conquistas de direitos dos trabalhadores no sistema capitalista, coisa impensável se o socialismo não tivesse existido e vencido a II Guerra mundial. Tanto assim é que, nos países antes socialistas, uma grande parte do povo lamenta o retrocesso que a derrota do socialismo provocou nas suas condições de vida e nos seus direitos.

 

Há que afirmar que a história não acabou, como pregavam os gurus imperialistas na década de 80 do século passado, nem o capitalismo é eterno e o melhor dos mundos, nem o socialismo morreu com o regresso do capitalismo aos antigos países socialistas do leste. As grandes massas, um pouco por todos os países, já se aperceberam de que algo está a faltar no mundo, de que algo está desequilibrado, por via da onda de destruição dos seus direitos, da degradação das suas condições de vida e da guerra. Está claro para milhões de pessoas que a derrota do sistema socialista não trouxe melhorias aos povos do mundo, muito antes pelo contrário.

 

O socialismo continua a apresentar-se como única solução possível e inevitável (não automática) para a barbárie capitalista/imperialista.

 

A propaganda do socialismo, contudo, por si mesma, nada vale e pode até levar a água a outros moinhos. As efemérides da Revolução de outubro, do Manifesto do Partido Comunista, do nascimento de Karl Marx, etc., remetem para um imaginário utópico se não se explicar às massas quais as suas tarefas hoje para a consecução de tais objetivos no futuro. Essas, sim, são palavras e atos desligados da prática. E, por muito que se afirme que o socialismo e até o comunismo são o futuro de Portugal, isso não transpõe para os dias de hoje, com as ferramentas do marxismo-leninismo, as condições concretas, atuais, para alcançar esse objetivo, por muito distante que, eventualmente, ele esteja. Não se dizendo aos trabalhadores como se chega lá, não se dizendo o que fazer hoje, abre-se um hiato político entre as lutas por objetivos concretos e o socialismo. Os objetivos concretos ligam-se apenas à “política patriótica de esquerda” e à “democracia avançada”, conceitos que são apenas formas de designar reformas do capitalismo.

 

Desgraçadamente, o refluxo revolucionário no mundo refletiu-se também no movimento comunista internacional com o desaparecimento e/ou a queda no oportunismo de muitos partidos comunistas. Por esta razão, as massas ficam aprisionadas na falta de perspetiva para a sua futura libertação da escravatura assalariada, no desconhecimento da única solução para resolver os problemas dos trabalhadores e dos povos, o socialismo, na falta de confiança das próprias forças para o derrube do capitalismo. O capital diz que o socialismo morreu e as forças revolucionárias existentes são insuficientes para dar combate político e ideológico a essa tese.

 

Não se pode avançar na luta contra exploração sem o combate ao revisionismo e ao reformismo, começando por denunciar o seu papel central na derrota do socialismo. Os processos de degenerescência foram isso mesmo, não constituíam uma normal decorrência do desenvolvimento do regime e do sistema, de defeitos e dinâmicas intrínsecas, como afirma o inimigo de classe. Tratou-se, isso sim, dos desvios que começaram a ser induzidos, mas desvios de direita, quer na base económica, quer na superstrutura, no sentido de uma gradual violação das leis do socialismo e da adesão a métodos capitalistas, não de desvios de “esquerda” ou “estalinistas”.

 

 

 

[1] Na 2ª parte já publicada não fizemos referência a que o PCP voltou a tratar este tema no XIV e XVIII Congressos. Pelo facto, pedimos desculpa aos nossos leitores.

 

[2] Democracia e Socialismo o Futuro de Portugal, ed Avante!, Lisboa 1993, p. 215

 

[3] idem, p. 216

 

[4] XVIII Congresso do PCP, ed. Avante, Lisboa, 2009, p. 240

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