Albano Nunes, O Democrata Avançado

 

 

[1]

 

Nos últimos meses, Albano Nunes (AN) tem vindo a pronunciar-se reiteradamente a favor da actual “posição conjunta” assinada entre o nosso Partido e o PS, à luz da táctica e da estratégia definidas no Programa da Democracia Avançada, pela primeira vez adoptado pelo Partido em 1988 e, desde então, não corrigido na sua essência.

Vejamos os pontos nucleares em torno dos quais Albano Nunes (AN) tece uma tal defesa, e aquilo que nessa defesa representa, de forma mais clara e evidente, o desvio oportunista de direita que o Partido actualmente protagoniza.

 

 (AN1)

Socialismo e Democracia

Avante!, 20 de Abril de 2017

http://avante.pt/pt/2264/emfoco/144942/

 

(AN2)

A revolução de Outubro não deve ser colocada num museu

Entrevista a São José Almeida, Público, 16 de Junho de 2017

https://www.publico.pt/2017/06/16/politica/noticia/a-revolucao-de-outubro-nao-deve-ser-colocada-num-museu-1775774

 

(AN3)

Estratégia e táctica na luta pelo socialismo

Seminário “Socialismo, exigência da actualidade e do futuro”

17 de Junho de 2017

http://www.revolucaodeoutubro.pcp.pt/centenario/intervencao/intervencao-de-albano-nunes-105

 

1. O alvo ficcional do ‘Socialismo já’

 

Quer no seu artigo “Socialismo e Democracia”, quer na sua intervenção “Estratégia e táctica na luta pelo socialismo”, AN identifica duas atitudes que os comunistas devem saber evitar: os oportunismos de direita e de esquerda. Até aí, todos de acordo. Por princípio, qualquer marxista-leninista é contra qualquer desvio oportunista. O problema é determinar o que pode ser tido como oportunista (de direita ou de esquerda) em cada circunstância histórica e política concreta.

Ora, é neste ponto que o discurso e a argumentação AN falham em toda a linha. Vejamos como e porquê.

AN diz que um dos perigos consiste nas actuais “manifestações de impaciência e fuga para diante, queimando etapas, e apontando a tomada de poder pela classe operária como tarefa universal e imediata, sem a devida consideração da situação concreta em que os diferentes partidos comunistas actuam”. Trata-se, em suma, da posição do “socialismo já”, que promove “a negação ou subestimação da existência de etapas e fases intermédias no caminho da conquista do poder pela classe operária” (AN3).

 

Mas onde está este inimigo fantasma? Quem no PCP defenderá o “socialismo já”?

Claro que não estão hoje reunidas as condições para uma revolução socialista. Esta é uma evidência cuja demonstração seria quase ociosa.

Continua, por isso, a ser intelectualmente embaraçoso assistir à tentativa de AN fugir ao debate real.

O ‘socialismo já’ podia ser interpretado como um simples moinho de vento na cabeça de AN. Mas, na verdade, trata-se apenas de uma antiga táctica retórica: caricaturar o oponente, atribuindo-lhe o que ele não defende, para mais facilmente o refutar.

Compreendam, pois, os nossos camaradas (já que AN insiste em fazer de conta que não entende) que o problema não é saber se nós devemos guiar a nossa acção como se o socialismo pudesse ser realizado já hoje, ou amanhã ou depois de amanhã. O problema é saber determinar o(s) caminho(s) que mais realisticamente poderão criar as condições para uma cada vez mais forte e alargada consciencialização e mobilização dos trabalhadores para a necessidade de derrubar o sistema capitalista por via de uma revolução socialista.

O problema é como poderemos nós aproximarmo-nos, e não afastarmo-nos, da criação dessas condições.

Esta é a verdadeira questão.

Poderá, pois, AN, desistir de falar no seu alvo ficcional do ‘socialismo já’, presumivelmente existente no seio do nosso Partido, e concentrando-se na verdadeira questão que é a fundamentação (histórica e teórica) do etapismo reformista que perfilha, bem como da sua aplicação à actual “posição conjunta” com o Governo PS?

Poderá AN desistir de inventar inimigos fantasmas somente para desviar as atenções do actual comportamento do nosso Partido?

Estamos seguros que poderíamos ter um debate mais profícuo e, sobretudo, bem mais honesto do ponto de vista intelectual.

 

2. Há uma revolução socialista em curso, informa AN

Mas que tem AN para dizer, quando se trata de justificar a estratégia e a táctica do PCP no quadro da sua actual posição conjunta com PS?

Neste contexto, AN cita Lenine (AN1):

A revolução socialista não é um acto único, uma batalha única numa única frente, é toda uma época de conflitos de classes agudos, uma longa sucessão de batalhas em todas as frentes, quer dizer em todas as questões de economia e de política, batalhas que só podem acabar pela expropriação da burguesia” (Lenine, 1916).

 

E AN acrescenta ainda da sua lavra:

Se há uma lição que se pode tirar da revolução de Outubro e do desenvolvimento do marxismo por Lenine ela tem que ver justamente com a questão das alianças. (...) E se há uma coisa que a táctica leninista ensina é que, na luta revolucionária, na luta pelo objectivo fundamental que é o socialismo e o comunismo, a classe operária, os trabalhadores e o seu partido, o PCP, devem recorrer a todas as alianças, convergências, mesmo circunstanciais, mesmo provisórias, mesmo em torno de objectivos limitados, que façam avançar o processo e que respondam aos interesses das massas. Estamos convencidos que o acordo que fizemos com o PS – muito limitado, nunca escondemos que era muito limitado – respondeu e ainda responde a interesses fundamentais que tinham sido calcados aos pés” (AN2).

 

Neste tipo de resposta há três questões da maior importância que devem ser relevados.

1. Como é que as medidas daquele ‘programa mínimo’ acordado pelo Partido com o PS – feito de medidas não apenas muito limitadas, como reconhece o próprio AN, como facilmente reversíveis em próximas legislaturas, se não mesmo compensadas a favor do Capital pelo actual governo (dá-se com uma mão, tira-se com a outra) – respondem a “interesses fundamentais” das massas e fazem “avançar o processo”? Mas de que processo fala AN? O processo que nos conduzirá à “expropriação da burguesia” e ao “socialismo e comunismo”?

É quase embaraçoso tentar levar a sério o que AN nos diz.

 

2. Claro que uma “revolução socialista não é um acto único, uma batalha única numa única frente”, etc., etc.. Mas que tem isso a ver com a nossa realidade?

Estamos nós hoje a assistir a um processo revolucionário socialista? Onde estará ele em curso? Na Europa? Especificamente em Portugal? No Mundo em geral?

AN não nos deixa aqui sem resposta. Pelo menos, em Portugal essa revolução é certa. Diz-nos AN:

na etapa actual da revolução portuguesa, o PCP luta por transformações progressistas profundas sem colocar como tarefa imediata a luta pelo socialismo, o que nada tem de ilusão reformista” (AN1).

Também isto é para ser lido seriamente? Há uma revolução socialista a decorrer actualmente em Portugal?

Seria uma excelente notícia, não fora o delírio.

 

A revolução de Abril de 1974 terminou a 25 de Novembro de 1975, não obstante ter sido aprovada, em 1976, a mais progressista Constituição na Europa. Mas desde então foi sempre a perder. E não apenas à custa das sucessivas revisões constitucionais... A luta do Partido foi sempre a de resistência, no sentido de preservar, ao máximo, o legado de Abril. Mas os comunistas têm a obrigação de analisar objectivamente a realidade que os rodeia: a contra-revolução ganhou, as conquistas fundamentais de Abril foram sistemática e paulatinamente destruídas (pelo PS, PSD e CDS), e em 1988 o PCP viria a substituir o seu Programa da Revolução Democrática e Nacional pelo Programa da Democracia Avançada.

A revolução de Abril já era. De que revolução actual fala, pois, AN?

Agora, trata-se é de saber como (ou se queremos) lutar por uma nova revolução neste século XXI.

 

3. Mesmo esquecendo a fábula da etapa actual da revolução portuguesa, conseguem os camaradas observar, no quadro da nossa actual situação – um governo do PS suportado por três posições conjuntas: PCP/PS, BE/PS e PEV/PS –, esses “conflitos de classes agudos” e essa série de “batalhas em todas as frentes”...?

 

Como todos sabemos, Lenine defendeu que há contextos em que alianças e convergências com partidos burgueses podem ser justificáveis e até objectivamente necessários, mas na condição destes serem aplicados no quadro de uma táctica “para elevar, e não para rebaixar, o nível geral de consciência, de espírito revolucionário e de capacidade de luta e de vitória do proletariado” (Lenine, 1920).

A justificação e a necessidade não são pois reduzíveis à intenção de se conquistar “objectivos limitados” que procuram responder a “interesses” imediatos das massas. Aliás, todos sabemos quão limitadas e, tantas vezes, aparentes e perfeitamente reversíveis são essas conquistas. Uma tal missão é própria de um partido reformista.

Ora, têm os camaradas assistido a essa elevação de consciência proletária, de espírito revolucionário e capacidade de luta e de vitória, em virtude da acção do PCP no contexto actual da sua “posição conjunta” com o PS?

Esta é a questão! De nada vale, caro AN, invocar as lições de Outubro e o  marxismo-leninismo, nem agitar a questão do não absoluto aos acordos (falsa questão!) para dissimular o desvio oportunista do nosso Partido, procurando unir os camaradas contra o perigo fantasma dos camaradas “esquerdistas” e “sectários” que querem o socialismo já.[2]

 

3. A Democracia em geral e o Socialismo

 

Outra questão frequentemente invocada por AN é a relação de continuidade entre a luta pela democracia e a luta pelo socialismo. Esta relação, a verificar-se nos termos exactos com que AN a equaciona, justificaria a acção actual do Partido.

Com um tal objectivo, AN cita (AN1), de novo, um passo de Lenine:

 

Seria um erro capital acreditar que a luta pela democracia é susceptível de desviar o proletariado da revolução socialista, ou de eclipsar esta, de a esbater, etc. Pelo contrário, do mesmo modo que é impossível conceber um socialismo vitorioso que não realizasse a democracia integral, do mesmo modo o proletariado não se pode preparar para a vitória sobre a burguesia se não trava uma luta geral, sistemática e revolucionária pela democracia” (Lenine, 1916).

 

Porém, AN omite aos camaradas o sentido e o alcance desta posição de Lenine.

Em “O Proletariado Revolucionário e o Direito das Nações à Autodeterminação” (Lenine, 1915), Lenine defende a justeza da luta pela autodeterminação e pela revolução democrático-burguesa sobretudo, e fundamentalmente, no caso dos países coloniais e em todos os países em que a revolução democrático-burguesa não havia sido ainda plenamente realizada (na altura, tratava-se da Ásia e da África: da Índia, da China, da Pérsia, do Egipto...).

Claro que Lenine (1915) defende que o “proletariado não pode vencer senão através da democracia, isto é, realizando integralmente a democracia e ligando a cada passo da sua luta reivindicações democráticas formuladas da maneira mais decidida. É absurdo opor a revolução socialista e a luta revolucionária contra o capitalismo a uma das questões da democracia, neste caso a questão nacional. Devemos combinar a luta revolucionária contra o capitalismo a um programa e a uma táctica revolucionários em relação a todas as reivindicações democráticas: república, milícia, eleição dos funcionários pelo povo, igualdade de direitos das mulheres, autodeterminação das nações, etc.” (op. cit.).

Porém, Lenine faz questão de alertar:

“Enquanto existir o capitalismo, todas essas reivindicações [democráticas] só serão realizáveis como excepção e, mesmo assim, de maneira incompleta e deformada” (op. cit.).

 

Ora, se assim é, nunca os comunistas poderão ser levados a acreditar que essas reivindicações democráticas poderão constituir um Programa de reformas susceptível de ser realizado antes  – e sem a necessidade prévia – de uma revolução socialista, apresentando-se, dessa forma, como uma nova etapa intermédia entre o sistema capitalista monopolista e imperialista da democracia burguesa e a sociedade socialista. Isso sim, seria iludir os militantes do PCP em particular e os trabalhadores em geral. Ora, é isto mesmo que é defendido e prometido no Programa da Democracia Avançada!

Se algumas reivindicações democráticas mais avançadas puderem ser realizadas, se bem que parcialmente – como casos de “excepção e, mesmo assim, de maneira incompleta e deformada” – no quadro do sistema capitalista, isso será obviamente bem-vindo, mas nunca tais reivindicações poderão ser prometidas aos trabalhadores como objectivos realizáveis antes de uma revolução socialista. Tais reivindicações devem ser fundamentalmente concebidas como factores de mobilização, consciencialização e aprendizagem do proletariado para a necessidade de uma revolução socialista, porque só esta poderá oferecer-lhes as condições para uma autêntica democracia.

Vale a pena apresentar o contexto integral da passagem do mesmo artigo de Lenine (1915):

“Enquanto existir o capitalismo, todas essas reivindicações só serão realizáveis como excepção e mesmo assim de maneira incompleta e deformada. Apoiando-nos na democracia já existente, desmascarando o seu carácter incompleto sob o capitalismo, nós exigimos o derrubamento do capitalismo, a expropriação da burguesia, como base necessária tanto para liquidar a miséria das massas como para a completa e integral realização de todas as transformações democráticas. Algumas dessas transformações serão iniciadas antes do derrubamento da burguesia, outras durante esse derrubamento, outras ainda depois dele. A revolução social não é uma batalha única, mas uma época com toda uma série de batalhas por todas e cada uma das questões das transformações económicas e democráticas, que só terminarão com a expropriação da burguesia. É precisamente em nome desse objectivo final que devemos formular de modo consequentemente revolucionário cada uma das nossas reivindicações democráticas. É inteiramente concebível que os operários de qualquer país determinado derrubem a burguesia antes da realização integral mesmo de uma só transformação democrática essencial. Mas é completamente inconcebível que o proletariado, como classe histórica, possa vencer a burguesia se não estiver preparado para isso por uma educação no espírito do democratismo mais consequente e resolutamente revolucionário.

 

Que nos diz, pois, Lenine? Que nós devemos exigir “o derrubamento do capitalismo (…) para a completa e integral realização de todas as transformações democráticas”.

Lenine não afirma que os comunistas deverão propor uma nova democracia, mais completa ou avançada, prometida como coisa realizável ainda no quadro do sistema capitalista... se bem que idealizado como um tipo de capitalismo “de rosto humano”, com mais “preocupações sociais” e “patriótico”: um capitalismo de economia mista, anti-monopolista e anti-imperialista.

A bem da verdade, este projecto não é sequer inédito. Ele foi defendido pelo chamado eurocomunismo – leia-se O Eurocomunismo e o Estado, de Santiago Carrillo, por exemplo. Em qualquer caso, este projecto é uma fraude que só servirá para domesticar, apaziguar e enganar os trabalhadores com uma promessa só aparentemente mais fácil ou razoável de ser alcançada, porque susceptível de ser conquistada por uma melhoria do sistema capitalista em que vivemos, e sem uma revolução.

Mas nós não alimentamos a fé de um derrube do capitalismo e de uma transição para o socialismo por via reformista!

Todavia, esta é precisamente a fábula que nos é oferecida no Programa da Política Patriótica de Esquerda e da Democracia Avançada, à luz do qual se justificará a “posição conjunta” do Partido com a actual direcção do partido capitalista e burguês chamado PS![3]

 

Dá, pois, para perceber as diferenças entre o que AN pretende extrair das suas citações parciais de Lenine, e o que Lenine de facto afirma e defende quanto às relações entre a luta pela democracia e a luta pelo socialismo?

A luta pela democracia de que Lenine falava não é, por conseguinte, aquela que AN nos quer vender. Nem Lenine, nem os nossos camaradas, caro AN, merecem uma tal campanha de trafulhice ideológica e de profunda desonestidade intelectual!

Mais valeria a AN ser honesto, demarcar-se de Lenine, e assumir as verdadeiras fontes eurocomunistas das teses e dos argumentos que perfilha.

 

4. O Conto de Fadas – as Etapas Reformistas

 

E assim somos chegados ao último tópico das intervenções de AN: o etapismo reformista da Política Patriótica de Esquerda e da Democracia Avançada.

AN recorda-nos as duas etapas que, uma vez cumpridas, prepararão as condições de uma transição para o socialismo.

Essa democracia avançada deverá ter, diz-nos AN, “um conteúdo popular” e “uma natureza de classe anti-monopolista e anti-imperialista”. Mais propriamente, trata-se de “uma democracia que se distingue fundamentalmente das democracias burguesas dominadas pelo capital monopolista que – cada vez mais diminuídas e amputadas, aliás – existem por essa Europa fora”. (AN1)

Mais: “É uma democracia em que se colocam tarefas e objectivos que são já tarefas e objectivos de uma sociedade socialista: entre a etapa da democracia avançada e a etapa socialista da revolução portuguesa, não só não há uma «muralha da China» como são etapas interligadas” (AN1).

Em suma, ao passo que  de 1965 a 1988 o Partido defendia que só uma Revolução Democrática e Nacional poderia constituir-se como uma etapa para uma futura revolução socialista, agora o Partido assume que uma ‘evolução’ ou um ‘desenvolvimento’ para o socialismo deverão ser prosseguidos através de uma Política Patriótica de Esquerda e de uma Democracia Avançada... Desta forma, o Partido passou de um etapismo revolucionário para um etapismo reformista.4

 


 

 

Pode AN desenhar e colorir com os mais belos traços e as mais diáfanas cores a imaginada democracia avançada. O problema não são os limites da imaginação. É o realismo das propostas.

Como conquistar essa Política Patriótica de Esquerda, e como realizar as bases dessa Democracia Avançada, sem uma revolução socialista?

Voto a voto, greve a greve, de manifestação em manifestação, de reforma em reforma, de acordo a acordo?

Quando o PCP puder contar com o PS e/ou com o BE para criar uma maioria parlamentar que queira pôr em prática essa política? Deverão, pois, os camaradas esperar que o PS venha a abandonar a sua natureza de classe e/ou que a direcção do BE desista de procurar salvar o capitalismo de si mesmo?

 

AN observa na sua entrevista a São José de Almeida: “Haverá contradição, no momento em que se perca de vista os objectivos finais, estratégicos e se trabalhe apenas a conjuntura e os objectivos imediatos, cai-se no reformismo e deixa-se de ser um partido revolucionário.” (AN2).

Mas o nosso Partido, lamentamos reconhecê-lo, já caiu no reformismo.

Porque a questão não é “perder de vista” os objectivos finais. Não se trata de esquecer os objectivos finais no plano dos princípios teóricos e abstractos. O problema é não se encontrar qualquer ligação lógica e programática entre a táctica e a estratégia do Partido. Entre a prática reformista dos acordos de programas mínimos com partidos burgueses e a aspiração maximalista e teórica ao socialismo apenas temos proclamações e cânticos “marxistas-leninistas” em comícios e festas.

 

Quantos mais contos de fadas nos quererão contar para nos entorpecerem neste sono reformista? Quanto mais contos de fadas nos quererão contar contribuindo para a “deformação” ideológica dos nossos camaradas?

 

AN queixa-se reiteradamente na praça pública que o Partido é acusado de ser reformista, porque não defende o ‘socialismo já’ “como objectivo imediato da sua acção”, e por “admitir convergências e alianças, mais ou menos transitórias, no plano social e político” (AN1).

Errado.

Como vimos, o Partido caminha, sim, num desvio reformista, porque assume a defesa de que o caminho para o socialismo pode (e deve) realizar-se pela criação de uma política patriótica de esquerda, e na subsequente implementação de uma democracia avançada, sem e independentemente da necessidade prévia de uma revolução e da conquista do poder do Estado. E por isso é que todos os acordos e alianças com partidos capitalistas e burgueses, como o PS, se justificam. Porque qualquer medida reformista – por muito limitada e insuficiente que ela seja, claro está – pode sempre ser saudada como ‘mais um passo’...

E é sempre mais um passo neste beco sem saída.

 

É preciso lembrar os camaradas que nos lêem que a defesa exclusiva dos ‘programas mínimos’ que poderão minorar o custo de vida do dia-a-dia dos trabalhadores é a missão tradicionalmente reclamada pelos partidos sociais-democratas (ou, na melhor das hipóteses, pelos exércitos de salvação nacional).

A tese de que esse caminho reformista e legalista de melhor gestão social e económica do capitalismo poderá levar-nos, gradualmente, ao socialismo, era a tese ‘evolucionista’ do social-democrata Bernstein.

A tese de que um Partido Comunista não deve assumir como sua tarefa principal a preparação das condições para a possibilidade de uma revolução socialista, mas apenas estar preparado para quando tais condições vierem ao nosso encontro, é a tese do “renegado” Kautsky.

Em que ficamos, caro AN? Quem somos nós? Que vanguarda é esta?

 

Sem assumirmos como tarefa imediata a luta pela consciencialização e mobilização de todos os trabalhadores para a necessidade de se destruir o aparelho do poder de Estado, criado e controlado pela burguesia capitalista, através de uma revolução socialista, como poderemos nós vender o sonho de uma democracia verdadeiramente avançada e do socialismo?

 

*

E assim voltamos ao princípio para finalizar. O problema não é saber se nós devemos guiar a nossa acção presente como se o socialismo pudesse ser realizado já. O problema é saber determinar o(s) caminho(s) que mais realisticamente poderão criar as condições para uma cada vez mais forte e alargada consciencialização e mobilização dos trabalhadores para a necessidade de derrubar o sistema capitalista por via de uma revolução socialista! O problema é como poderemos nós aproximarmo-nos, e não afastarmo-nos, da criação dessas condições.

Esta é a verdadeira e única questão.

O problema não vem, portanto, de opositores ficcionados que, no nosso Partido, quereriam “o socialismo já”, nem vem de quem acha que as etapas – quaisquer que elas sejam – deverão ser todas “queimadas”. O problema é o irrealismo do actual projecto comunista português que nos conduz ao beco sem saída que é este etapismo reformista por si partilhado e defendido.

 

O medo – expresso por muitos camaradas e designadamente pelo camarada camarada Miguel Urbano Rodrigues (2012)  – de que “muitos militantes” cheguem à “conclusão de que aflora no Partido uma tendência reformista de matizes eleitoralistas”, infelizmente, confirma as suas razões de ser e reforça-se a cada dia que passa...

Porque a “ruptura” que o Partido assume, em nome de uma Política Patriótica de Esquerda e de uma Democracia Avançada, constitui-se como “uma luta dentro do sistema e não uma ‘ruptura’ com o sistema” (op. cit.).

Uma ruptura com a política de domínio do grande capital aliada à burguesia do pequeno capital? Uma ruptura com o capitalismo imperialista aliada à burguesia patriótica do capital nacional? Uma ruptura com o capitalismo monopolista para regressarmos ao bom velho capitalismo da livre-concorrência? Mas há “capitalismo bom” e “capitalismo mau” e é a dimensão que define a sua natureza?

 

Esperemos que a consciência dos perigos, que o Miguel Urbano Rodrigues expressou, possa levar os camaradas a exigir do nosso Partido que ele seja aquilo que ele mesmo proclama ser: um partido comunista com uma estratégia e uma táctica verdadeiramente marxistas-leninistas para o nosso tempo.

 

Como escreveu, mais recentemente, Miguel Urbano Rodrigues, no seu artigo “De Eduard Bernstein ao novo reformismo – Revisionismo” (2016),

 

A história do movimento operário e do movimento comunista é riquíssima em ensinamentos. Tendo, como sempre teve, que procurar soluções novas para uma sociedade nova em quadros de extrema complexidade e perante uma relação de forças em regra muito desigual, seria talvez inevitável que fossem muitos os erros cometidos, muitas as opções que, em vez de reforçar o movimento, o enfraqueceram e conduziram a derrotas. E é com os erros que mais há a aprender. Evitar repeti-los é evitar repetir derrotas”.

 

 

Referências:

Lenine (1915), O Proletariado Revolucionário e o Direito das Nações à Autodeterminação

(https://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/10/29.htm)

 

Lenine (1916), The Socialist Revolution and the Right of Nations to Self-Determination (https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1916/jan/x01.htm)

 

Lenine (1920), A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo, cap. 8: (https://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/esquerdismo/cap05.htm#topp)

 

Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), Edições Avante!, 1999.

 

Miguel Urbano Rodrigues (2012), “Omissões e rupturas” (18 de Outubro), Avante! http://www.avante.pt/pt/2029/pcp/122285/.

 

Miguel Urbano Rodrigues (2016), “De Eduard Bernstein ao novo reformismo – Revisionismo”, O Diário (12 de Dezembro):http://www.odiario.info/de-eduard-bernstein-ao-novo-reformismo/

 

 

[1] NE: A crítica está fulanizada na medida em que AN está a ser o porta-voz da linha política do Partido nos documentos analisados.

 

 

[2] Tal como não seria honesto, da nossa parte, acusar AN de gritar a plenos pulmões “democracia avançada já!”.

 

[3] Sobre a possibilidade de os comunistas encontrarem numa qualquer burguesia progressista um apoio à sua luta, vale a pena ler a crítica de Lenine ao Sr. A. Potréssov, em 1915: “Sob uma Bandeira Alheia” (https://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/mes/bandeira.htm).

 

[4] Em 1965, o Programa do Partido dizia: "O Partido Comunista Português aponta à classe operária e às massas trabalhadoras a revolução democrática e nacional como uma etapa primeira e necessária para a revolução socialista." [Programa do Partido Comunista Português, Aprovado pelo VI Congresso em 1965, Lisboa, Edições ‘Avante!’, 1974 (3ª edição), p. 16].
A partir de 1988, defenderá o Partido: “Tal como o Programa do PCP aprovado em 1965 e reafirmado com alterações em 1974 no VII Congresso (Extraordinário) sublinhava que a realização completa da revolução democrática e nacional criaria condições favoráveis para a evolução da sociedade portuguesa rumo ao socialismo, assim também, ao propor no seu Programa uma democracia avançada no limiar do século XXI, o PCP considera que a realização de um tal projecto criará condições propícias a um desenvolvimento da sociedade portuguesa conduzindo ao socialismo." (Programa do PCP: Uma Democracia Avançada no Limiar do Século XXI  (Aprovado no XII Congresso, em 1988); URL: http://www.pcp.pt/joomla/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=39#27).
Note-se estas duas mudanças: não apenas a etapa de 1965 e as etapas de 1988 se distinguem quanto às suas naturezas, respectivamente, revolucionária e reformistas, como em vez de “revolução socialista”, passou-se a falar em “evolução da sociedade portuguesa rumo ao socialismo” e em “desenvolvimento da sociedade portuguesa conduzindo ao socialismo”.

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