Almas Gémeas

A ofensiva contra o Partido conduzida no final dos anos 90 pelos “renovadores” foi de uma ambição extrema. Tratava-se de desfigurar radicalmente o P em todas as frentes: programática, política, ideológica, organizativa. Tratava-se, como certeiramente alertou Álvaro Cunhal, de social-democratizar o PCP. É por isso que são tão significativas as coincidências de discurso e de orientação entre o que a actual direcção faz e diz e o que os “renovadores” defenderam.

Vejam-se alguns exemplos:

 

“Renovadores”:

Sustenta-se por isso que o PCP, além da defesa das suas propostas, apresente ao PS e ao BE uma proposta de plataforma política para uma convergência pós-eleitoral, susceptível de viabilizar uma reorientação de política e de governo no sentido da esquerda, que conte com a participação ou simplesmente com o apoio parlamentar dos comunistas e que seja mobilizadora de um alargado apoio social” (João Amaral e Edgar Correia, “Convergir à esquerda”, “Expresso”, 21.01.2002)

Sem dúvida que a política de alianças para uma democracia avançada passa pelo PS, mas a partir do reforço das posições do PCP.” (Domingos Lopes, “PCP: o caminho de todos para todos”, “Expresso”, 21.01.2002)

 

Actual linha política do PCP:

A solução política alcançada não responde ao indispensável objectivo de ruptura com a política de direita e à concretização de uma política patriótica e de esquerda. Tem como expressão política o grau de compromisso correspondente ao nível de convergência alcançado entre PCP e PS, limitado pelas óbvias e afirmadas diferenças programáticas e de percurso, inscrito na «Posição Conjunta do PS e do PCP sobre solução política»."(Resolução Política do XX Congresso)

 

“Renovadores”:

 “A acção para a construção da alternativa de esquerda, capaz de dar execução a uma política de esquerda, devia ser para o PCP uma orientação estratégica central e uma preocupação constante. Isto significa, além do mais, que o PCP devia orientar a sua acção no sentido de, por um lado, alcançar a aprovação de novas medidas efectivas que, correspondendo a orientações de esquerda, vão no sentido de servir o país e a população e, por outro lado, de desenvolver e alargar a base social e política que dê suporte a uma alternativa democrática.

É neste quadro que deve ser analisado o problema do Orçamento de Estado para 2002 e da sua aprovação. Para as forças de esquerda, a questão é saber se o Orçamento e o processo que o rodeia servem para prosseguir as orientações neoliberais, ou se pelo contrário podem abrir quaisquer perspectivas para uma inflexão à esquerda da vida política nacional. […]

Para os trabalhadores, para a vida democrática, o regresso ao poder da direita pura e dura representaria um grave revés e pesadas restrições e sacrifícios durante anos." (Bento Luís – pseudónimo de um colectivo “renovador” - Junho 2001, http://www.geocities.com/bentoluis/junho2001.html)

 

Actual linha política do PCP:

Por um lado, a concretização de um conjunto de avanços, ainda que limitados, resultado da luta dos trabalhadores e da intervenção do PCP, expressos quer nos Orçamento do Estado para 2016 e 2017, quer em outra importante legislação de reposição de direitos, remunerações e rendimentos, e de testemunho, mesmo que conjuntural, em sentido contrário àquele que apresentaram como único e inevitável” (Resolução Política do XX Congresso)

Nesta nova fase da vida política nacional, não se deve perder nenhuma possibilidade de travar e inverter a política de exploração, empobrecimento e declínio, de responder à vontade de mudança manifestada pelo povo português, de defender, repor e conquistar direitos, aspectos que se impõe associar cada vez mais à afirmação da necessidade de ruptura com a política de direita, da adopção da política patriótica e de esquerda e da democracia avançada, vinculada aos valores de Abril, indispensável para um Portugal com futuro.” (Francisco Lopes, “Avante”, 23.12.2015)

 

“Renovadores”:

Por exemplo, não é suposto que os comunistas coloquem na agenda política a necessidade de um programa de democracia avançada que represente um elemento de transição para o socialismo? Se sim, quais devem ser os traços gerais desse programa, designadamente no que diz respeito às formações económicas? Com que forças sociais e políticas é possível caminhar nesse sentido? Senão, qual é a via que hoje preconizamos para o socialismo? A técnica da escaramuça, na esperança de que o capitalismo caia do poder, podre? Isso não será demasiado mecanicista para um partido revolucionário?” (Cipriano Justo, “Os comunistas na encruzilhada”, “Público”, 8.11.2000)

 

Actual linha política do PCP:

A luta por objectivos concretos e imediatos, pela ruptura com a política de direita e com os constrangimentos externos e por uma alternativa patriótica e de esquerda, inscrevem-se na luta pela democracia avançada, parte integrante e inseparável da luta pelo socialismo e o comunismo. Como militantes de um partido revolucionário nunca devemos perder esta realidade de vista. É nas pequenas lutas por objectivos parciais e limitados que se preparam as grandes e decisivas batalhas.”. (Albano Nunes, intervenção no XX Congresso)

 

“Renovadores”:

O comunismo não é um projecto que se possa impor às sociedades” (José Luís Judas, “Continuar comunista, renovar o Partido”, Ed. autor, Abril 1990, p. 21)

 

Actual linha política do PCP:

A construção do socialismo não pode ser imposta a um povo” (José Capucho, “Socialismo e comunismo, objectivos supremos do PCP”, “O Militante” nº 345, Nov/Dez 2016, p.10)

 

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