A Coerência de Mário Soares

 

Os escribas da maioria da ideologia burguesa dominante já esgotaram as palavras com os panegírios a Mário Soares, o que não quer dizer que tenham acabado, mas apenas que não fizeram mais do que repetir-se ad nauseam.

 

De tudo o que foi dito, há que procurar distinguir o fio condutor, a ideia-chave que percorreu todas as peças ideológicas debitadas a partir deste acontecimento inevitável: fechou-se um ciclo histórico, final e definitivamente a “democracia” venceu! O grande general foi Mário Soares. As entrevistas estavam feitas, os documentários realizados, as cerimónias pomposas ensaiadas, o protocolo mais ou menos afinado. Afinal, como não podia deixar de ser, o acontecimento estava previsto e era como o destino – fatal.

 

Qualquer acontecimento histórico é passível de uma interpretação, de uma “narrativa” que procura explicá-lo, dar-lhe um certo contexto, estabelecer causas e consequências, compreendê-lo. Essa “narrativa” não é neutra de um ponto de vista de classe. É até comummente aceite que quem escreve a história são os vencedores, enquanto senhores da historiografia.

 

Esta tese da vitória final da “democracia” posta a circular a propósito da morte de Mário Soares, que quer ir, diga-se, muito para além do próprio acontecimento, corresponde à “narrativa” que a ideologia burguesa faz da história recente de Portugal. Essa “narrativa” inclui não só a revisão da história como a mentira e o apagamento de factos.

 

Da mensagem central que se pretendeu passar extrai-se que os resistentes antifascistas foram alguns intelectuais e pequeno-burgueses como Mário Soares e seus pares. A classe operária, os trabalhadores e o povo estiveram ausentes ou foram sujeitos passivos e ignorados que não lutaram fazendo greves, manifestações, que não sofreram a repressão, a prisão e a fome. Não foram os comunistas que estiveram à frente da luta do povo não só pela liberdade, mas também pelo pão, pelo fim da guerra colonial, pela libertação do país do garrote imperialista, sem desfalecimento, sem hesitação, à custa de indizíveis sacrifícios, durante quase cinco décadas.

 

Eles foram presos e perseguidos pela PIDE e sofreram as agruras dos exílios. No caso de Mário Soares, as prisões contam-se por meses e os exílios foram, pelo menos, bastante confortáveis. Os comunistas não foram sujeitos às maiores e inenarráveis torturas, não se contam por séculos os anos da liberdade que lhes foi roubada nos cárceres fascistas. O povo não sofreu o exílio forçado dos seus filhos na emigração e na guerra colonial.

 

O fascismo era um regime que retirava as “liberdades” e não tinha outro conteúdo senão esse. A exploração desenfreada da classe operária, o poder dos monopólios e dos latifundiários, a propriedade privada dos grandes meios de produção e uma distribuição iníqua da riqueza não fazem parte da definição de fascismo. Não era preciso estilhaçar este estado de coisas, libertar os trabalhadores e o povo da exploração, era apenas necessário restabelecer a “liberdade”.

 

Em 48 anos da ditadura fascista, Mário Soares foi membro do Partido Comunista Português durante cinco. Outros valores mais altos se terão levantado entretanto. Certo é que, em 1969, vêmo-lo a dividir a oposição democrática, constituindo a CEUD, enquanto a maioria dos outros democratas militavam e se apresentavam a “eleições” no quadro da CDE.

 

Mas a mensagem central é a de que Mário Soares lutou pela «democracia» não só no período fascista, mas sobretudo depois do 25 de abril, evitando uma «deriva totalitária da revolução», uma «ditadura comunista» ou uma «tentativa de tomada do poder pelos comunistas», encaminhando a revolução para o seu curso natural, para os seus objetivos essenciais conforme repetem incansavelmente os instrumentos da ideologia do capital. Cortar o passo aos comunistas foi a coroa de glória do trabalho «democrático» de Mário Soares no pós 25 de abril. É verdade. Não merece homenagem, mas opróbrio.

 

Não há espaço nem necessidade de relembrar todos os factos. Mário Soares fez tudo o que pode para destruir o 25 de abril, assim se pode resumir. No período revolucionário conspirou com a CIA, pediu o apoio da NATO, dividiu os militares do MFA, convocou manifestações reacionárias, conspirou com os movimentos-fantoche de «libertação» para tentar impedir o reconhecimento da independência das ex-colónias, conspirou com Spínola, conspirou com a extrema-direita fascista do MDLP e afins, conspirou com a social-democracia europeia contrarrevolucionária, conspirou com o Vaticano. Estaria disposto a tentar dividir o país ao meio constituindo um governo a norte de Portugal caso o 25 de novembro não tivesse triunfado.

 

Promoveu as revisões constitucionais que liquidaram o Conselho da Revolução na ordem constitucional e retiraram o socialismo, as nacionalizações e a Reforma Agrária do documento fundamental. Liquidou a Reforma Agrária com a lei Barreto, enviou a GNR para expulsar os trabalhadores das terras e sancionou os crimes que então foram cometidos. Impediu a unicidade sindical, fundou a UGT em conjunto com Sá Carneiro e Freitas do Amaral enquanto secretários-gerais dos respetivos partidos e quis partir a espinha à Intersindical com o seu amigo Maldonado Gonelha.

 

Promoveu toda a primeira ronda das leis anti-trabalhadores, como os contratos a prazo, a revogação da proibição do lay-off, a limitação do direito à greve, a introdução do método de Hondt na eleição das comissões de trabalhadores na tentativa de as dividir e partidarizar, instituiu o direito de tendência no movimento sindical.

 

Iniciou o processo de reprivatização dos bancos e de outras importantíssimas empresas. É bom não esquecer que foi pedir a Ricardo Salgado Espírito Santo, exilado no Brasil, que regressasse a Portugal para reconstituir o seu antigo grupo, contando com a preciosa ajuda do seu amigo Miterã e dos capitais por ele proporcionados através do Crédit Agricole.

 

E, finalmente, a adesão de Portugal à CEE com o objetivo político confesso de consolidar a «democracia» em Portugal. Entenda-se: destruir todas as conquistas de abril e amarrar economicamente Portugal ao capitalismo para impedr qualquer processo de libertação das amarras da exploração e da esfera de influência do capitalismo.

 

É tudo isto que se esconde por detrás das frases cientificamente preparadas como «ditadura de sinal contrário» ou «deriva antidemocrática» do 25 de abril supostamente defendida pelos comunistas. Que fique claro: era aquela a «democracia» que Mário Soares defendeu até ao fim da sua vida – não a democracia para os trabalhadores e o povo, para a melhoria das suas condições de vida e para a luta pela sua emancipação, mas a «democracia» para o capital poder explorar e fazer do país aquilo em que hoje voltou a tornar-se – uma colónia dos imperialismos.

 

Sim, em todos os processos políticos sórdidos em que se envolveu com um comportamento ético político sem classificação em que o qualificativo mentiroso será o menos ofensivo, Mário Soares foi coerente durante toda a sua vida: o ódio ao socialismo, aos trabalhadores e ao povo e a defesa intransigente dos interesses de classe burgueses – a «democracia» dele e da sua classe.

 

Com a sua morte, em todas as peças produzidas, a ideologia do capital quis deixar claro que considerava ter-se «encerrado um ciclo histórico» - o da consolidação da «democracia», entenda-se: uma revolução morta e enterrada, o triunfo do alegre reinado do capital e a perspetiva de que assim continuará por muitos e longos séculos porque o socialismo «desapareceu» da face da terra. Que os trabalhadores e o povo portugueses não tenham a veleidade de levantar a cabeça contra esta «democracia» perfeita.

 

Este bondoso democrata, e estas não foram as únicas tentativas ao longo da sua vida certamente, afastado já das lides partidárias, numa idade em que já poderia estar sossegado em casa, a ler os seus jornais internacionais, deu-se ao trabalho de promover e participar nuns encontros na Aula Magna para os quais foi convidado um largo espectro de personalidades de muitos quadrantes, digamos de «esquerda-centro», alguns dos quais até tinham a virtualidade de serem capazes de «fazer pontes». Num deles até foi proposto criar-se um movimento, uma entidade política correspondente ao espectro presente. Na altura, aquilo ficou, como diz o povo, «em águas de bacalhau». Mas não se deve subestimar a persistência do inimigo, água mole em pedra dura...

 

Alguém se recorda de ter ouvido falar no «abraço do urso»? Era o abraço que o PS de Mário Soares queria dar ao PCP, tal a sua estima e amizade por esse partido.

 

Então não é que o velho, mesmo morto, continua com o bracinho de fora? E não é que há necrófilos que não se importavam de ser abraçados pelo espectro?

 

 

 

 

 

 

 

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