Capítulo III

Neste capítulo (“A luta de massas e a alternativa”) faz-se um balanço das lutas dos últimos 4 anos, descrevem-se as classes e camadas intervenientes nesse movimento e as organizações respectivas, a intervenção nas instituições, as “batalhas eleitorais”, o quadro político e partidário, a luta pela “alternativa patriótica e de esquerda”, o reforço do P e da luta de massas para a “construção da alternativa”.

 

1- No que diz respeito aos vários balanços, algumas notas:

- o verificar-se, em muitos lugares, afirmações mais ou menos soltas que, no seu conjunto, permitiriam uma caracterização exacta, de classe, do actual regime democrático (e isto evidentemente, não se verifica apenas neste capítulo). Só dois exemplos: “uma brutal ofensiva contra os direitos laborais e a contratação colectiva […] alterando de facto […] as características das relações laborais” (3.2.1); “acentuadas limitações à democraticidade das eleições e de crescente discriminação e silenciamento” (3.7.2);

 

- a pobreza ou ausência de caracterização (que já vem de congressos anteriores) das diferentes classes e camadas em presença, e ausência de reflexão sobre a efectiva influência do P entre elas. Como de costume, são particularmente fantasiosas as referências à juventude (que passa à categoria de “camada social”) e é negativa a sistemática referência à participação dos intelectuais nas lutas como se isso resultasse exclusivamente do seu “crescente assalariamento e proletarização” quando, do ponto de vista da aproximação a essa camada, o essencial continua a ser - no quadro do capitalismo – o seu carácter de massa e a efectiva frustração da sua condição de intelectuais;

 

- a insistência na “acção e luta reivindicativa nos locais de trabalho” (3.4.4.1, 3.4.4.2) orientação que, sendo justa, traz consigo o risco de um deliberado abaixamento do nível e dos objectivos da luta dos trabalhadores. A luta nos locais de trabalho, se descolada de momentos de convergência geral (que o 25 de Abril e o 1º de Maio deixaram, em grande parte, de ser), afunila inevitavelmente no economismo e na despolitização, quando não no oportunismo. É necessário contrapor a esta perspectiva a articulação dialéctica entre luta local e luta geral: se não há luta geral sem raízes no local de trabalho, são também as grandes acções de massas convergentes que reforçam a combatividade e a luta nos locais de trabalho.

 

- Neste capítulo, como em todo o documento, há uma completa ausência de autocrítica ou de enunciado de dificuldades e deficiências. Isto é tanto mais negativo quanto se considere que se trata de um muito largo universo de “classes e camadas” em que não só a influência do P é em vários casos reduzida como se verifica uma fortíssima disputa de influência por parte de outras forças.

 

- A mesma ausência de autocrítica é particularmente chocante no caso das eleições presidenciais de Janeiro de 2016. Para além da incapacidade de reflectir politicamente e de uma formulação ridícula (e incompreensível: “aquém do valor que o seu projecto exigia”), do que se trata é uma questão de fundo. É que nessa campanha ficou absolutamente patente a ausência de eco entre as massas dos chavões da “política patriótica e de esquerda”. E, pior, que essa linha conduzirá o P a outros fracassos eleitorais (e orgânicos) ainda mais pesados.

 

2- O ponto 3.8 (“O quadro político e partidário”) contrasta com o ponto correspondente do anterior congresso sobretudo no que diz respeito ao PS, e também ao BE. Não por qualquer alteração concreta na natureza, características e orientação desses partidos, mas por conveniência da “nova fase”. Obviamente que, existindo no P uma tão clara identificação do PS com a política de direita, a sua caracterização não poderia sofrer uma alteração radical. O que é feito é abrir uma expectativa: avaliar o PS pelo que faça e não pelo que diga (“não das suas afirmações mas da sua prática concreta”). Mas o essencial está noutro lado: é que PS, PSD e CDS, antes caracterizados como partidos da mesma política (a formulação surgia também por via do papel do CDS, “reserva estratégica do grande capital para, em aliança com PSD e PS […]” etc.) surgem agora separados por uma “nova correlação de forças na AR”. Quanto ao BE, para além de uma caracterização incompreensível (“um verbalismo que não altera o seu carácter social-democratizante”), já se descobrem “zonas de convergência” em várias matérias.

 

Ao contrário da própria (e má) RP do XIXC, a caracterização das forças partidárias é exclusivamente institucional. A sua acção concreta, social, política, ideológica, de classe, é completamente omitida. Mas isso, mais do que opção, é resultado da indigência política e ideológica de quem escreveu.

 

3- Os dois pontos finais não merecem perder tempo com eles. Para quem fala de verbalismo em relação a outros, são o exemplo acabado de um discurso politicamente oco, feito de adjectivos e de chavões. A “política patriótica e de esquerda” nem os seus criadores é capaz de inspirar.

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